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A Bela Junie
La Belle Personne
França (2008)

Pedro | 21 anos | Rio de Janeiro |
Interest Matters: Francês, Jazz, Indie, Música Clássica, Folk, L'Arc~en~Ciel, Arctic Monkeys, Angra, Keane, the Smiths, the Cure, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Flëur, Vanguart, Jamie Cullum, Diana Krall, noite, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Franz Kafka, Julien Sorel, Honey and Clover, NANA, gatos, concertos, cinema, cinema, cinema, fotografia, fotografia, fotografia.

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[Sexta-feira, Maio 15, 2009]

Cultura da não-entrega

Benvidos ao mundo atual. Existem aqueles que nada querem saber, e aqueles que tudo querem saber. Eles são impossíveis! Sabem um pouco sobre tudo (e acham que sabem muito!), e muito sobre nada. Leem um livro de 140 páginas sobre Schiller, e saem por aí, com pose de que sabem tudo sobre o mesmo: e o pior, se julgam no direito de dar sua felizarda opinião sobre a obra e criação do pobre homem, juízos de valores sobre sua estética e sua retórica. Ha! Essa é boa... essa é boa...
Claro que quase sempre quem tem uma opinião, tem uma opinião negativa sobre as coisas. Tudo a princípio é mau e ruim, nada mais surpreende, nada é bom o suficiente. Tudo só existe em comparação. "Todos estão contra mim" também, minha cara.
Eu não sei se foram as guerras, a fome, as crises financeiras ou os sonhos esmagados das pessoas que sonham levianamente (e não fazem nada para realizá-los), mas todos se proibiram de sentir, de se doar, de doer. Ninguém mais valoriza o sofrimento, a dor, e qualquer sentimento que seja, pelo menos levemente, profundo. Até as manifestações de felicidade e surpresa são contidas, como se só uma criança pudesse expressar-se livremente. Tudo escondido por trás da pele e da carne.
Com isto, as pessoas decidiram ler a crítica antes de assistir ao filme (se surpreender? de jeito nenhum! compreender o filme sem as opiniões e anotações do crítico? não não); ouvir música como quem resolve problemas de aritmética, ou, para quem não se importa muito, ouvir a música que é tocada nas rádios (e parar de ouvi-la quando a programação parar de tocá-la, certamente); ver fotografias procurando os defeitos, quando não há nada de chamativo na imagem, e explicando-as como "manipulação digital", quando são pelo menos um pouco dignas de admiração; ler os livros que todos leem, ou os livros que se sentem obrigados a ler com o intuito de parecerem algo que almejam ser... Quanto aos livros, claro que quase sempre é um ler por ler, sem entrega e sem aprofundamento da experiência. Presta-se atenção aos recursos do autor, preocupa-se com "adivinhar" o desfecho, mas não se deixa-se ver com os olhos do narrador ou das personagens, viver a vida transbordante de possibilidades da literatura, sentir as impressões como se estivesse lá. Aqui e ali recorre-se, ao término da leitura, ao apoio de um texto teórico sobre esta, em um movimento de aceitar a visão e as impressões de um teórico que não é nem o autor da obra, e nem os leitores ordinários. Óbvio que todos querem ter a mesma leitura que tantos já digeriram, não é? Uma espécie de não-confiança na própria capacidade cognitiva e sensorial.
As vezes acho que todo mundo tem medo de si mesmo, medo de ficar sozinho consigo, medo do que o próprio silêncio tem a dizer. Um medo do auto-conhecimento, tão forte, que obriga a pessoa a querer ser infinitas pessoas que não estão contidas nela (e negar todas as pessoas que estão). Seguir modelos, se encaixar em perfis, repetir comportamentos. Até quem a priori não deveria, está aí, fazendo, quem diria. E não estou falando de sociolinguística, de pirâmide comunista ou outras sistematizações de mundo, afinal, todo mundo é influenciável por tudo, mas há de certa forma um senso de resistência a muitas coisas. O que me trás de volta a questão do sofrimento.
Michelangelo sacrificou sua saúde, seu corpo, sua visão, para terminar o teto da Capela Sistina. O homem de hoje diria "que idiota, se destruiu por causa de uma pintura", porém, pensando por outro lado, o que Michelangelo pode ter feito foi colocar a sua obra, o seu objetivo, acima de qualquer coisa, e persegui-lo até o fim, a qualquer custo. Sua obra permanece viva, enquanto o que o homem de hoje produz é tão pequeno quanto ele, morre a cada passo que dá na sua sede por nada. Os tempos do culto do "eu" levado ao extremo.
As pessoas fazem o ritual (e como amam a rotina!) de chegar em casa, ligar a televisão, assistir ao telejornal. Veem as tragédias de sempre, e mentem para elas mesmas dizendo estarem chocadas e sentirem muito, quando na verdade, começam a rir com a reportagem em seguida, sobre sexo na adolescência. (Prefiro não abordar sexo neste post, porém, viramos animais, não é? Tudo de que precisamos é satisfazer nossos corpos, em uma ideologia levadamente ao extremo por tantos.).

Enfim, gostaria de fazer um apelo: Abaixo a cultura da positividade! Abaixo a cultura do riso! Abaixo a cultura da não-entrega! Abaixo a cultura da superficialidade!



por * 2:17 AM

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[Segunda-feira, Abril 06, 2009]



Continue aí, não me levando a sério. Um dia terás motivo para fazê-lo. ;) or =(

por * 3:53 AM

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[Quinta-feira, Abril 02, 2009]

Ainda me lembro daquele dia em que supostamente tínhamos que usar as mesmas camisas sujas que já havíamos usado umas três vezes. Alguns quatro. Era um dia muito especial para todos no lugar - para nós era um dia curioso, inédito. Todos reconhecíamos a importância. Ou, será?
Acordamos cedo, comemos e tivemos diálogos curiosos - preciosas trocas - e depois partimos pelas belas ruas tão carregadas de história, lágrimas, amor, desejo de mudança e ódio. Enquanto aguardávamos, o sol nos castigava impetuosamente, e tivemos que sofrer seu castigo por longas horas, de pés naquela Avenida tão bela. Todos passaram, o Homem passou, fomos embora. Mais tarde, exaustos, recuperamo-nos rapidamente para entrar naquele pequeno e belo parque aos pés de uma obra tão majestosa que desafia a própria noção de beleza. A multidão não tinha permissão para entrar, mas nós tínhamos. Sentamos e deitamos sobre a grama bebendo água em potinhos estranhos.
Minha câmera desapareceu. Entrei em desespero. 10 minutos após ela ressurgiu e a dor foi encerrada. De repente a voz de Pavarotti começou a reverberar por longos quilômetros quadrados enquanto todos, em choque, percebiam o começo de algo. As luzes do Objeto foram apagas também - o que é algo realmente único. Começa o espetáculo mais impressionante que já testemunhamos - o mais próximo que já estivemos de cair irremediavelmente em síndrome de Stendhal. O céu preenchido de luzes de todas as cores, jatos de luz se espalhando calculadamente enquanto música peculiarmente bela e imponente tocava. Lembro-me de ter pensado imediatamente: isto é a Europa. Eles não agem assim só porque eles podem, e sim porque eles se sentem obrigados a fazê-lo. Milênios de história, tantas vidas, tantas reviravoltas, traições, mortes, cicatrizes. Um espetáculo assim é como uma pequena amostra do que o Velho Mundo é capaz de fazer.
Após voltarmos a realidade, era preciso andar, andar, andar. A cidade vazia de de manhã se transforma em uma aglomeração absurda de pessoas. Após muito andar, pegamos o metrô - depois descobrimos que fomos o último grupo antes de o acesso ao metrô ser fechado.
No metrô, o horror: pessoas desmaiando, empurrões grosseiros, homens tentando nos furtar com mãos pesadas. Coisa que nem em terceiro mundo se vê. Uma lotação impossível de se aguentar. Minutos arrastados de sufocamento e caos, para descermos, finalmente, em uma estação razoavelmente próxima. Não havia mais trem devido ao horário, portanto, andar, andar e andar novamente. Por contraste, acabou sendo uma caminhada muito agradável: espaço para se mover, ar fresco, conversas com amigos de todos os tipos.
Lembro-me que bem perto de casa tive um belo déjà-vu ao olhar para uma linda casa antiga iluminada com luz frágil alaranjada, pelo que se podia ver pelas janelas: uma experiência transcendental, como se já houvesse habitado ali em alguma outra vida. Desde este momento, ela volta aos meus sonhos aqui e ali.
Entramos, nos despedimos, e boa noite.





por * 2:05 AM

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[Quarta-feira, Abril 01, 2009]

Curioso, 15 dias podem mudar TUDO na vida de uma pessoa, não é mesmo? Pois eu já tive os meus. Eles acabaram servindo para o mal e o bem, mas de certa forma há sempre o lado positivo de que foi uma saída homérica da tal zona de conforto, da qual insistimos em ser habitués. A noção de "não pertencer" é terrível para algumas pessoas, fatal. Nestes 15 dias percebi que coisas muito elementares para nós passam a ser coisas cruciais quando nossa identidade é abalada. Sua língua, vozes conhecidas, lugares conhecidos, suas músicas, até mesmo a disposição bagunçada das suas coisas em seu quarto... muitas coisas só dóem quando ausentes. Aprendi que as pessoas são o maior elo que temos com nós mesmos. Sentia saudades de mim, tem coisa mais paradoxal? Talvez valesse a pena um dia em um cybercafé fazendo as coisas exatamente como se fazia em casa, na mesma ordem, falando com as mesmas pessoas... (ficar no quarto do hotel assistindo TV, por exemplo, só pioraria a situação).
Finalizando este vômito de pensamentos, devo dizer que aprendi que, como já dizia Caeiro, não devemos esperar encontrar o pasme nas coisas, e sim levar o pasme conosco aonde formos. Desta forma tudo sempre será novo, interessante, inédito... agora, como se faz para ter segurança convivendo com o novo o tempo todo?









por * 3:00 AM

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[Segunda-feira, Março 30, 2009]

Quando era pequeno, gostava de colocar todos os chapéus disponíveis no armário na cabeça, empilhando uns sobre os outros, pegar um violão de brinquedo, e cantar com voz enrouquecida para meus pais e seja lá quem mais estivesse no recinto para ovacionar. O nome do cantor era Caipirato - alcunha originada do fato de que o primeiro chapéu era sempre o de palha, de caipira. Ao mesmo tempo, gostava de colocar uma toalha na cabeça e uma nos ombros, e sair pela casa excomungando a todos. Uma certa tia do sul uma vez disse "este menino vai crescer e será padre." Deixa ela pensar assim, não vejo relação nenhuma, e nunca vi.
Anos mais tarde, fiquei viciado em Chico Buarque. Tinha memória excelente, e sabia todas as letras de cor, mesmo que não fizesse ideia do que estava sendo dito ali. Emocionava-me com "meu guri", e mais do que tudo com "Quem Te Viu, Quem Te Vê". *pequena explosão* CHORAVA muito! Vê se pode...

"Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você me assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade por favor não dê na vista
Bate palma com vontade, faz de conta que é turista"

Uma moça que me lê de forma peculiar, e que tem o dom peculiar de me afastar e me aproximar terrivelmente de mim mesmo, disse no futuro: "Você só quer aparecer." A gente se diz as coisas, mas quando vem com outra voz é sempre uma invasão, cannonball into the water. Felizes os atores.

Retomando. Aí já havia meandros de introspecção passando pelas veias. E foi agravando. Adolescência... grande perda de tempo. *pequena explosão* Misto de infância arrastada com velhice absurda. Um velho na adolescência, um adolescente na velhice? No lo se.

Aos 13 anos descobri o cinema *pequena explosão* que me agrada: aquele que se propõe a falar sobre o indizível, sobre o universal. Falar com cores, com silêncios sonoros, com posições corporais, com respiração. E pronto, nunca mais consegui me desapegar. Maldito cinema. Maldito. E bendito. Já tive amantes em Praga, já sentei-me sobre uma cadeira azul sob chuva torrencial em uma ponte na Itália, já estive na cama com duas francesas ao mesmo tempo, já passei meses preso no meu apartamento assistindo TV e planejando vingança, já cariciei o peitoral de um chinês em uma casa no meio de um lago secreto, já voltei a ser analfabeto para que leiam romances na cama para mim, já colei fotos de paisagens nas paredes da cela de um prisioneiro e cantei canções coreanas para ele...

O problema de viver tanto, é ter o risco de envelhecer rápido por dentro... e com isto, tender à uma vida que evita altos e baixos, que de certa forma estagna e vai apenas se arrastando para lugar nenhum, sem grandes ambições. Um não-fazer que ao meu entender, ao escrever estas linhas, relaciona-se à necessidade de se gerar um produto. Uma herança. Retomo-me oficialmente, só não sei para que posição tendendo.

Escrever é ferir o mundo. Faço-o na esperança de ferir aqui dentro também, e de repente por aí também... nunca se sabe o tipo de fantasma que pousa seu queixo sobre nossos ombros.





por * 1:59 PM

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